Destaques científicos da semana de 3 de Abril de 2020

O Instituto Nacional de Saúde (INS) pretende através deste boletim semanal, partilhar um sumário sobre as últimas informações e conhecimento científico existentes sobre o COVID-19 ao nível mundial. É importante observar que a pandemia do COVID-19 está a evoluir de forma rápida. Portanto, actualizações regulares serão feitas para garantir que haja informação sobre os desenvolvimentos mais críticos. Acesse aqui esse sumário científico em formato .pdf, ou visite a página com todos os sumários científicos completos.

CIÊNCIAS BÁSICAS (VIROLOGIA, IMUNOLOGIA, PATOGÉNESE)

Os resultados da análise do genoma completo (ainda em revisão de pares) sugerem o surgimento de SARS-CoV-2 (COVID-19) pode resultar de recombinação homóloga entre Coronavirus de Morcegos e Pangolim que desencadeou a uma transmissão entre espécies e emergência do novo coronavírus. No entanto, o SARS-CoV-2 ainda está em processo de evolução e adaptação. (https://doi.org/10.1101/2020.03.16.993816).

Uma nova transmissão do COVID-19 entre humanos e gatos foi relatada pela primeira vez na Bélgica. Um gato doméstico testou positivo para o teste de COVID-19 e presume-se que tenha sido infectado pelo seu dono. Trata-se de um caso raro, pois casos de contaminação de animais domésticos são incomuns. (https://www.bsava.com/News/ArticleID/2712/COVID-19-and-PetsBelgian-Cat-Tests-Positive).

EPIDEMIOLOGIA E VIGILÂNCIA

Um estudo (não submetido a revisão de pares1 ) que analisou a relação entre transmissão COVID-19 e temperatura local, sugere que um aumento de 1 grau Celsius da temperatura local poderia reduzir a transmissão do COVID-19 em cerca de 13%, em média. Este estudo foi realizado em cerca de 170.000 casos confirmados de 134 países no período de 22 de Janeiro a 15 de Março de 2020. Contudo, são necessários estudos laboratoriais adicionais para validar esta afirmação. (doi: https://doi.org/10.1101/2020.03.26.20044420).

Estimativas sobre o impacto de intervenções não farmacêuticas na luta contra o COVID-19 em 11 países europeus, realizadas pelo Imperial College, no Reino Unido, sugerem que essas intervenções evitaram um número de aproximadamente 59.000 mortes até 31 de Março. O mesmo relatório, mostra que muitas outras mortes serão evitadas se estas intervenções se mantiverem até que a transmissão diminua para níveis baixos. Nestes 11 países, o relatório estima que entre 7 e 43 milhões de indivíduos foram infectados com SARS-CoV-2 até 28 de Março, o que representa entre 1,88% e 11,43% da população (https://www.imperial.ac.uk/media/imperial-college/medicine/sph/ide/gida-fellowships/ImperialCollege-COVID19-Europe-estimates).

Um estudo sobre o surto na Itália reportou uma taxa de letalidade de 7,2%, substancialmente mais alta do que a de 2,3% observada na China. Os autores atribuem essa alta taxa de letalidade na Itália ao número maior de pacientes com mais de 70 anos, e à definição de morte relacionada com o COVID-19 com base em testes positivos para SARS-CoV-2 (independentemente da existência de comorbidades que podem ter causado a morte dos pacientes) e as estratégias rigorosas de teste que priorizam pacientes com sintomas clínicos graves que necessitam de internamento. (JAMA. March 23, 2020. doi:10.1001/jama.2020.4683).

Um rastreio epidemiológico molecular precoce baseado em caracterização molecular e uma análise filogenética dos três primeiros genomas completos de SARS-CoV-2 sugerem que o vírus entrou no norte da Itália 3-5 semanas antes dos primeiros casos de infecção relatados na região (Journal of Medical Virology; doi: 10.1002/jmv.25794).

Um estudo que analisou o mecanismo de interacção do vírus com as células humanas, mostrou que o receptor viral do SARS-CoV-2, virus’ receptor-binding domain (RBD) reconhece e liga-se melhor ao receptor humano, human angiotensin-converting enzyme 2 (hACE2) do que ao receptor viral RBD do virus SARS-CoV. Isto pode explicar de alguma forma o potencial infeccioso do COVID-19 comparado ao virus do SARS. O estudo também elucida sobre o mecanismo de transmissão do vírus de morcegos para os seres humanos, a possibilidade de existência de um hospedeiro intermediário e possíveis estratégias de intervenção que poderiam ajudar no seu controle, por exemplo, uma vacina com base em anticorpos monoclonais neutralizantes contra os receptores virais “receptor-binding domain (RBD” do SARS-CoV-2 (Nature communications 7, 13473, https://doi.org/10.1038/ncomms13473; 2016).

Um estudo sugere que a percentagem de linfócitos no sangue (% LYM) pode ser usada como um indicador confiável para classificar a infecção do COVID-19 em moderada, grave e crítica, independentemente de quaisquer outros indicadores auxiliares, e que a linfopénia é um indicador eficaz e confiável da gravidade e internamento de pacientes com COVID-19 (Sig Transduct Target Ther 5, 33, 2020; doi.org/10.1038/s41392-020-0148-4). § Um estudo realizado numa unidade de enfermagem, indica que os serviços de assistência a longo prazo são ambientes de alto risco para a infecção por Covid-19. Num total de 167 casos confirmados de infecção pelo Covid-19 incluindo 101 residentes, 50 profissionais de saúde e 16 visitantes, verificou-se que estas infecções estavam epidemiologicamente ligadas à estadia naquela unidade de enfermagem (NEJM. 2020, March 27, doi: 10.1056/NEJMoa2005412).

Um estudo (não submetido a revisão de pares) que testou a estabilidade do SARS-CoV-2 em cinco condições ambientais (aerossóis, plástico, aço inoxidável, cobre e papelão) sugere ocorrência de transmissões através de aerossóis e fómites (roupas, objetos capaze de absorver, reter e transportar organismos contagiantes ou infecciosos), pois o vírus permaneceu viável em aerossóis por 3 horas (embora uma ligeira redução na infecciosidade tenha sido observada), em cobre por até 4 horas, em cartolina por até 24 horas e em plástico e aço por até 4 dias, dependendo do inóculo). (NEJM March 17, 2020. doi: 10.1056/NEJMc2004973).

Um modelo matemático da dinâmica de transmissão e controle do Covid-19 realizado usando dados de doentes com coronavírus 2019 (COVID-19) em Wuhan e casos observados fora mas originados em Wuhan, estimou que o número médio de reprodução diária (Rt) em Wuhan diminuiu de 2,35 uma semana antes da introdução de restrições de viagem em Janeiro de 2020, para 1,05 uma semana depois. Estes resultados, mostraram que a implementação da medida de restrição de viagens limitou a propagação do vírus. (Lancet Infect Dis 2020. March 11, 2020. doi:https://doi.org/10.1016/S1473-3099(20)30144-4)

DIAGNÓSTICO

Num estudo retrospectivo de 610 pacientes hospitalizados em Wuhan (China), os resultados dos testes moleculares (RT-PCR2 ) para SARS-CoV-2 mostraram uma tendência flutuante. O estudo relatou uma taxa potencialmente alta de falso-negativos de RT-PCR para SARS-CoV-2 em pacientes com diagnóstico clínico de COVID-19. O estudo conclui que deve ser usada uma combinação de RT-PCR e indicadores clínicos não apenas para diagnóstico e tratamento, mas também para isolamento e definição de recuperação/alta dos pacientes (J Med Virol. 2020 Mar 26. doi: 10.1002/jmv.25786).

A entidade reguladora de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos de América (US FDA) concedeu recentemente a autorização para uso em emergência de um equipamento simplificado para o diagnóstico de COVID19, da empresa Abbot. Segundo a Abbott, a tecnologia consegue detectar um resultado positivo em cinco (5) minutos e um resultado negativo em cerca de 15 minutos e pode ser usado no contexto hospitalar e comunitário (https://www.abbott.com/corpnewsroom/product-and-innovation/detect-covid-19-in-as-little-as-5- minutes.html).

A Mammoth Biosciences e virologistas da Universidade de Washington estão a desenvolver uma abordagem baseada no CRISPR (Ferramenta de edição de DNA) para detectar coronavírus (https://www.nature.com/articles/d41586-020-00827-6).